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Chapada Diamantina, Bahia. Imagem reprodução.

Município de Ibiquera, Bahia. Imagem reprodução.

UM LEGADO DE AMOR E DE APRENDIZADO

 

Meu avô nasceu no dia 21 de setembro de 1915 [data a qual só tivemos conhecimento em 2016, ao acessar os registros no cartório da cidade de Utinga-BA. Até então, o ano creditado fora o de 1917. Para tanto, estabelecemos o ano de comemorações do seu centenário para 2017 e as demais celebrações, agora, de acordo com a sua data efetiva de nascimento;] na cidade de Itaberaba, no estado da Bahia, na região da Chapada Diamantina, em território desmembrado e atualmente conhecido como o município de Ibiquera, após promulgação de lei estadual em agosto de 1958. Nascido Euzébio Leandro Pereira, negro, filho de família humilde, os pais eram empregados de fazendeiros da cidade vizinha, Ruy Barbosa, aos pés da linda Serra do Orobó.

 

Mesmo sem acesso ao sistema escolar da época, ele se alfabetizou sozinho, apenas por acompanhar e conversar com os filhos dos donos da fazenda que recebiam instrução em casa. Musicista, também aprendeu sozinho a tocar viola e acordeon (sanfona) e em pouco tempo ficou conhecido como um dos melhores sanfoneiros da região.

 

Essa história remete a uma passagem curiosa de sua vida, mais precisamente do momento em que conheceu a minha avó, Nailde. Por conta do namoro com ela, meu avô teve que encerrar seus dias de apresentações como sanfoneiro.

 

Temendo que outras moças se enamorassem dele por conta do seu talento musical, minha avó lhe disse que só se casaria se ele, meu avô, deixasse de tocar a tão famosa sanfona. Apaixonado, Euzébio lhe fez a promessa de tocar pela última vez no dia do casamento dos dois. Promessa feita, promessa cumprida. Após a festa, meu avô nunca mais tocou o acordeon.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conciliador, comunicativo, vovô também falava bem sobre política com os amigos na praça da cidade, findo o dia de trabalho na feira local. Em casa, grudado ao pé de um enorme rádio de madeira posicionado em meio a sala de estar, ele ouvia costumeiramente o programa "A Voz do Brasil", atento para não perder nenhum detalhe da rotina política em Brasília.

 

Nas décadas de 60 e 70, durante os anos de chumbo no país, meu avô chegou a conclusão de que deveria apoiar a oposição, preterindo o governo dos militares. Mesmo com a distância que vivia em relação aos grandes centros da época, como Salvador, acompanhou as posições do MDB, apesar da forte pressão exercida por políticos e pelo padre na cidade para que a população seguisse a "ARENA", partido da ditadura.

 

Somados a esses exemplos de doação, senso crítico e afeto, a habilidade com o aprendizado e a educação dos filhos também lhe emergiam com certa naturalidade. Casado, meu avô repassou o que aprendeu aos 14 filhos que tivera.

 

Com um talento único para contar histórias, ele embalava os sonhos e a imaginação da minhã mãe, e de seus irmãos, com narrativas típicas do nordeste brasileiro. Um rico legado histórico e cultural passado de pai para filha, que alcançou os netos e já caminha para uma quarta geração.

 

Tudo o que sei sobre o meu avô é contado pela minha mãe. Ela sempre me fala sobre sua proximidade com o pai, do quanto o amava e o quão importante ele foi em sua vida, além de sempre expressar o desejo de registrar a sua história. Vovô faleceu meses depois que nasci. Chegou a conhecer  por fotografia apenas o meu irmão mais velho.

 

Nunca gostou de ser fotografado. Isso torna difícil localizarmos um retrato seu. O rosto dele é quase incógnito para mim, salvo algumas comparações com alguns parentes. Contudo, acabei por conhecê-lo graças a memória e o amor da minha mãe para com ele e para com nós, os netos, em tão docemente manter viva a memória de seu pai.

 

 

 

 

 

 

 

 

Meu avô era ainda uma expressão de tolerância, de compaixão e de carinho, marcadas em seus ideais de liberdade e de vivência. Aprendi a amar o meu avô tanto quanto a minha mãe o ama e percebi o inestimável legado deixado por ele. Um legado próprio da grandeza de um indivíduo de personalidade singular.

 

Ao cultivar a humildade de forma constante e se expressar com um amor irreparável, meu avô se fazia presente por suas ações e por seus exemplos. Considero essas ações como estações, capazes de consolidar um modelo de aprendizado permanente em nossas vidas. 

 

Certo de que assim como o seu legado ele também viverá para sempre, mobilizo os esforços para consolidar a sua memória e ao mesmo tempo proporcionar a sociedade a partilha do amor por ele a nós deixado. A Fundação Euzébio Leandro é uma semente que frutificou e a nossa forma de dizer a você vovô o nosso Muito Obrigado.

 

Eduardo de Sena Agualuz

CEO e Filantropo

"[...] Ao cultivar a humildade de forma constante e se expressar com um amor irreparável, meu avô se fazia presente por suas ações e por seus exemplos."

"[...] Meu avô era ainda uma expressão de tolerância, de compaixão e de carinho, marcadas em seus ideais de liberdade e de vivência."