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Caminhada Filantrópica

November 14, 2014

Após 17 anos, parceria entre entidade e emissora de TV se renova e mantém a capacidade de arrecadação e de mobilização filantrópica junto a sociedade brasileira

 

Redação 

REVISTA ESTAÇÕES

 

Com uma meta desafiadora de 26 milhões de reais, a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) deram início no último dia 7 de novembro a maratona televisa para arrecadação de recursos para entidade, conhecida como Teleton.

 

 

Anna Júlia, criança símbolo do Teleton 2014

 

No palco, em meio ao corre-corre de repórteres e artistas, a pequena Anna Júlia, de apenas 11 anos, distribuia sorrisos e simpatia. Apresentada como a criança símbolo da campanha deste ano, Anna está na AACD há 11, pois chegou ainda aos seis meses de vida. Ela sofre de mielomeningocele toráxica, um defeito congênito em que a espinha dorsal e o canal espinhal não se fecham antes do nascimento, o que prejudicou o desenvolvimento de seus membros inferiores.

 

Todavia, a personalidade de Anna Júlia é como a de qualquer criança de sua idade. Gosta de brincar, de estar ao lado dos amigos e dos familiares, de estudar e de conversar alegremente, com desenvoltura e entusiasmo.

 

Como a criança símbolo do Teleton, Anna representa agora o sentimento de cada um dos pacientes da AACD, mobilizando o público para que apoiem a campanha da maratona televisa:

 

"Sendo criança eu ajo como uma pessoa normal. Eu brinco, estudo. É normal ser criança e falo para todas elas para serem crianças, para aproveitarem o quanto possível, assim como eu estou aproveitando. Ser criança é maravilhoso. E ajudem o Teleton, ajudem a AACD, pois ela é uma segunda mãe pra mim." 

 

Criado em 1966 nos Estados Unidos pelo ator Jerry Lewis, que teve um filho deficiente físico, o Teleton é realizado em mais de 20 países da Europa, América do Norte e América do Sul, anualmente. A América Latina possui uma organização dos países que realizam o Teleton, a Organização Internacional dos Teletons (Oritel), cujo objetivo é o de favorecer a troca de conhecimento entre os países e as instituições, além de possibilitar uma melhor integração entre aqueles que visam uma sociedade mais justa e produtiva para os deficientes físicos de todo o mundo. (fonte: portal da AACD)

 

Anualmente, a sociedade civil no mundo todo se organiza para arrecadar ou mobilizar recursos para causas de variados fins, sejam humanitárias, ambientais, expressando um sentimento natural de caridade e de empatia, em um processo de partilha e de comoção entre os indivíduos. No Brasil, mobilizações em tempo de catástrofes naturais, ou ações que se dão em meio a casos particulares de comoção de um semelhante exposto a certa vulnerabilidade, costumam angariar não só recursos, como também grande apelo popular.

 

Contudo, a ativista do terceiro setor Carol Civita, em artigo publicado em agosto deste ano no Brasil Post, destaca que a "filantropia não é caridade, assistencialismo ou socorro para situações de emergência. Filantropia é projeto social a longo prazo. É aquilo que, em sociedades de economia estável, incentiva o setor privado a buscar melhorias na estrutura social de uma nação."

 

Diante dessa reflexão, é interessante a maneira como a maratona televisa Teleton se organiza no Brasil e em muitas partes do mundo. Particularmente em solo nacional, há uma capacidade enorme por parte da ação em se renovar, capilarizando carisma e empatia junto ao público brasileiro, aplicando aspectos importantes do conceito de filantropia como um projeto da sociedade, uma vez que a rede de hospitais da AACD cresce e se espalha por todo o país. A entidade já cobre boa parte do território nacional e implementa anualmente a sua estrutura, o que vai ao encontro da ideia de melhoria da estrutura social como um todo e por meio de uma atividade constante e duradoura.

 

 

Regina Helena Scripilliti Velloso, presidente voluntária da AACD, e José Roberto Maciel, vice-presidente do SBT

 

Regina Helena Scripilliti Velloso, presidente voluntária do conselho administrativo da AACD, sabe bem disso. Em suas impressões sobre a maratona para arrecadação de fundos, bem como sobre o dia-a-dia de trabalho realizado pela entidade, ela faz questão de ressaltar a importãncia da boa governança de todas as ações, com o objetivo principal de garantir a perenidade da causa:

 

"Toda gestão, para ser boa, precisa sempre se atualizar. É preciso ainda olhar para as pessoas, investir nas pessoas, em equipamentos, em um processo contínuo e evolutivo de trabalho. Esse ano mesmo, os recursos arrecadados com o Teleton serão utilizados para a manutenção das unidades, pois precisamos consolidar o nosso crescimento e a nossa qualidade no atendimento, garantindo assim a perenidade das nossas atividades."

 

Vice-presidente do SBT, José Roberto Maciel não só compartilha da visão de Regina, como reflete sobre a parceria entre entidades de credibilidade, considerando-as estratégicas para a mobilização filantrópica nas sociedades:

 

É fundamental e é estratégico porque trata-se de um projeto extremamente sério. Em um país no qual a cada dia a gente clama por mais transparência, é importante quando um veículo de comunicação de credibilidade se une a uma instituição de credibilidade para mobilizar a sociedade em torno de uma causa. Ainda mais quando após essa mobilização ocorre a prestação de contas de como foi utilizado o recurso que foi doado por cada um que doou e se envolveu com aquela causa. Isso faz toda a diferença e a AACD tem conseguido promover essa transparência ao longo desses 17 anos de Teleton.""

 

 

Valdesir Galvan, superintendente geral e CEO da AACD

 

O planejamento estratégico das ações na AACD aparece não só na governança e na sua gestão, mas também no atendimento direto dado aos seus pacientes. O superintendente geral e CEO da AACD, Valdesir Galvan, explica que a entidade não só reabilita fisicamente, como também tem preocupações voltadas para uma visão mais ampla e social, ao inserir parte das pessoas assistidas pela instituição no mercado de trabalho, no esporte e em outras ações:

 

"Nós preparamos parte dos pacientes para o mercado de trabalho, como mantemos uma escola para os portadores de necessidades especiais com mais de 150 alunos. Se a AACD não oferecesse essas vagas, essas pessoas possivelmente não estariam em uma escola tradicional, impedindo o seu progresso nos estudos. Temos também a AACD Esportes, que prepara a inclusão dos pacientes nessa área. Alguns, inclusive, pacientes e alunos, evoluíram e hoje já são campeões paulista, nacional, em modalidades como o tênis de mesa e a natação. Hoje eles já são esportistas paralímpicos.

 

O Teleton passa a ser um motivador da filantropia, principalmente quando mobiliza pessoas físicas, que doam pequenas quantias pelo telefone e que se sentem, ao fazer a sua doação, parte de um projeto altruístico maior perante a sociedade.

 

Embora a clássica imagem da "Tropa do Cheque" de empresas, recebida por Silvio Santos no palco da atração, próxima do fechamento do evento, ainda povoe o imaginário de muitos atores da sociedade que se debruçam sobre a questão da filantropia promovida pela ação, ela, a tropa, por si só não daria a legitimidade que a causa necessita. Sem o "Exército de Cidadãos" que, individualmente, doam a partir da quantia mínima estipulada em 5 reais, e da comoção gerada ao longo das 27 horas de maratona na televisão por meio de artistas, celebridades e por parte das crianças e pacientes atendidos pela instituição, fatalmente o espírito filantropo inexistiria, tornando a ação uma mera alocação de recursos financeiros.

 

Para se ter uma ideia de como a filantropia por parte de pessoas físicas no Brasil ainda é tímida, e como o Teleton promove uma primeira importante incursão a esse universo, destacamos mais uma reflexão da ativista do terceiro setor Carol Civita, no mesmo artigo publicado no Brasil Post em agosto deste ano, ao lembrar que só nos Estados Unidos, "ano após ano, pessoas físicas são creditadas por 2% do crescimento no PIB, com doações sistemáticas, provenientes de projetos pessoais a longo prazo. Pessoas que buscaram encontrar um foco de atuação, que lhes seja relevante, e para o qual destinam parte de seus lucros anualmente. Contribuições individuais ou familiares, de pessoas com renda estável, entre 2011 e 2013, já representavam 73% da arrecadação total feita pelo setor privado, de acordo com a análise do Giving USA - The Annual Report on Philanthropy. E assim, o terceiro setor vem apresentando resultados jamais vistos desde a grande recessão mundial, e o poder privado vem atingindo um 'empoderamento' jamais visto nos Estados Unidos, garantindo assim uma democracia sólida."

 

No Brasil se quer há um levantamento oficial sobre essa mobilização e os poucos dados reunidos estão sendo organizados e discutidos por importantes organizações como o Instituto do Desenvolvimento Social (IDIS), apoiado em algumas primeiras pesquisas realizadas por instituições como a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o que nos da a esperança de termos brevemente informações e estatísticas sobre a questão.

 

Torna-se fato que a mobilização no país ainda é pequena diante das necessidades locais. Carol Civita reforça em seu artigo que "[...] temos que encarar - ainda no Brasil - casos de corrupção descabida, como o desvio da verba alocada pela Cruz Vermelha ao país, e entender o fato de que 8 entre 10 hospitais filantrópicos no Brasil operam no vermelho."

 

Casos como esse só reforçam a importância de exemplos de transparência e de gestão como os da AACD e da campanha Teleton, aliados a uma perenidade que alcança 64 anos de existência da entidade e de 17 anos de maratona de arrecadação. Exemplos bem sucedidos certamente podem e devem ajudar sensivelmente a construção de uma cultura de doação duradoura por parte da população brasileira, afastando o medo da corrupção e da negligência.

 

 

Painel no palco da atração mostra o momento em que a meta de arrecadação de 26 milhões é superada

 

 

 

O apresentador Silvio Santos no palco do Teleton, em sua emissora de TV na cidade de Osasco

 

 

Este ano, diante da meta de 26 milhões de reais citada inicialmente, foram arrecadados mais de 30 milhões de reais, superando em 4 milhões a previsão almejada. 

 

É inegável que a força de uma emissora de TV, somada ao carisma de um dos maiores comunicadores brasileiros como Silvio Santos, também contribue e muito para o alcance desses números em um espaço de tempo tão curto como o de 27 horas.

 

Ainda assim, quem doa individualmente ajuda o país a dar os primeiros passos dessa difícil, mas tão necessária caminhada filantrópica, a fim de fortalecer a sociedade e a própria democracia. Passos, aliás, já vistos como promissores e belamente ilustrados nas palavras da criança símbolo da campanha, Anna Júlia, quando ela nos fala sobre o que pensa para o futuro:

 

"Apesar de ser maravilhoso ser criança, também quero ter a minha vida como adulta. Quero poder ser uma adulta responsável para ajudar os outros, assim como me ajudam hoje."

 

 

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