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Tempo de Esporte e de Aprendizado

December 20, 2014

Atividades físicas e modalidades esportivas, como a capoeira, complementam o aprendizado e contribuem para a interação social e afetiva.

 

 

Redação 

REVISTA ESTAÇÕES

 

O país está prestes a sediar as primeiras olímpiadas e paralímpiadas de sua história, o que gera expectativa não só sobre a maneira como o evento será conduzido, mas principalmente sobre quais serão ou poderão ser os ganhos e os crescimentos gerados à sociedade, após vivenciarmos essa experiência de dimensões continentais.

 

Contudo, o momento é também oportuno para a realização de uma reflexão sobre o quão a implementação do esporte e das atividades físicas na rotina dos indivíduos pode ser benéfica, a ponto de ampliar a capacidade de aprendizado e melhorar o bem-estar de cada um.

 

Em artigo publicado neste ano no portal "Educacional",  intitulado "Uma reflexão sobre o aprender e o ensinar", a psicopedagoga Cecília Faro enfatiza que "o ser humano é susceptível e absorve as influências do meio no qual está inserido. Nessa troca, acontece então o aprender. Quando nos referimos ao aprender, subentende-se que exista algo ou alguém que aprende — o aprendente — e algo ou alguém que ensina — o ensinante."

 

A observação de Cecília nos faz presumir alguns dos aspectos que constróem as relações do aprendizado. Partindo do pressuposto que o ser humano "é susceptível e absorve as influências do meio no qual está inserido", podemos imaginar o aprendizado a ser proporcionado aos indivíduos no momento em que eles praticam atividades físicas, ou quando se submetem as regras e ao contexto de uma modalidade ou competição esportiva? Que transformações essa experiência pode ocasionar? São questões práticas, cujo o intuito é evidenciar o potencial das atividades físicas ao serem trabalhadas por meio da expressão da vivência e do aprendizado das pessoas.

 

Exemplo que vem de dentro

O sorriso e os passos ajustados de Carolina... Os gestos amorosos de Edna... O carinho e a perseverança de José para com o filho Ivan... Personagens da vida, compartilhando dois pontos em comum: o esporte e o aprender. Vidas que se refizeram física, mental e emocionalmente. Histórias contadas durante o encontro do grupo de capoeira mantido no núcleo de esportes da AACD, na unidade Lar Escola São Francisco, em São Paulo. Além das práticas esportivas, a escola ainda atende crianças e jovens com necessidades especiais nos cursos regulares de ensino, bem como promove a capacitação e o direcionamento de portadores de deficiência para o mercado de trabalho.

 

Nossos personagens, CarolinaEdnaJosé Ivan se encontram e reencontram constantemente no círculo de movimentos da luta marcada, guiada pelo som de berimbaus e de tambores, tocados por mães e pais dos próprios pacientes. Luta que superou lutos. Perdas transformadas em vitórias, em uma linha expressa no presente e espelhada no futuro de esperança, ao se despedir sem rancores do passado.

 

 

 

Mães e Pais de alunos e pacientes interagem durante a Roda de Capoeira

 

 

 

 

 

Capoeira na AACD Esportes, Lar Escola Escola São Francisco

 

 

 

 

 

Carolina da Silva Barbarino, atleta paralímpica, com as medalhas conquistadas nas competições de natação

 

 

Quem vê a jovem tão desenvolta na roda de capoeira, não imagina que Carolina, hoje com um sorriso fácil, já foi uma garota tímida, irrequieta e com dificuldades de se relacionar com outras crianças. Moradora da cidade de Osasco, na Grande São Paulo, e a terceira de seis irmãos, sendo três meninas e três meninos, aos 18 anos ela não só joga capoeira, como pratica natação, modalidade da qual já faz parte da equipe da seleção paralímpica. Curioso é que muito do que ela é hoje, Carolina atribui a deficiência que lhe acometeu logo nos dois primeiros anos de vida. O que poderia soar como tristeza, tornou-se, nas palavras da própria Carolina, uma virada em sua personalidade.

 

“Eu cheguei na AACD por conta de uma meningite. Amputei a perna com 1 ano e 7 meses e logo após a amputação já me encaminharam direto para cá. Eu participo da capoeira desde pequena. Estou na AACD desde 1997. É engraçado porque se eu não fosse deficiente, eu não sei o que seria de mim. Sou tudo aqui dentro da AACD. Eu acho que não seria essa pessoa que eu sou. Logo que tomei consciência de ter perdido a perna, me tornei uma pessoa muito tímida, brava, ninguém encostava em mim. Eu começava a chorar. Mas hoje eu sou essa pessoa alegre, feliz e tudo graças à capoeira e a natação, atividades que me proporcionaram esse contato com as pessoas. A AACD é tudo pra mim.

 

 

Sobre a possibilidade de participar das Paralímpiadas, Carolina nos fala dos resultados e da sua trajetória na natação, com o objetivo de focar nos treinamentos para representar o Brasil nos jogos de 2016, no Rio de Janeiro.

 

"No ano passado fui seleção brasileira juvenil, disputei o parapan juvenil, fiquei na segunda colocação. Foi um orgulho, a primeira vez na seleção brasileira. A gente acha que nunca vai chegar lá e eu consegui. Em 2016 quero estar lá sim representando o Brasil, vou treinar o ano que vem com o pessoal da seleção, morar em São Caetano (do Sul), treinar com eles, e desenvolver ao máximo as habilidades para estar nos jogos. Quero representar o meu país."

 

 

 

 

 

 

Edna Garcez, coordenadora do grupo de capoeira da AACD Esportes

 

 

Uma fala doce para com cada um que se aproxima. Um abraço de carinho e de amabilidade. Com 30 anos dedicados ao trabalho com portadores de necessidades especiais, Edna Garcez coordena o grupo de capoeira da AACD Esporte e se orgulha de ter encontrado no auxílio aos deficientes físicos a vocação para o seu trabalho.

 

“Estou a 30 anos na AACD. Eu me formei em educação física, mas desde o tempo da faculdade eu já me voltava para o campo de pessoas com necessidades especiais. Tive contato com a síndrome de down, fiz durante dois anos um curso de especialização em deficiência auditiva, deficiência visual, intelectual, e me encontrei de forma definitiva na deficiência física."

 

Com um cuidado maternal, Edna nos explica a importância da capoeira e dos esportes na vida não só dos pacientes, mas também na de mães, pais e de toda a família.

 

"Todos nós temos limitações, bloqueios e frustações, mas com essas pessoas acontece uma limitação real e físicaImagine como é para uma mãe, um pai, que considera a "ideia de normal", após 9 meses esperando uma criança e de repente ela nasce como uma criança especial? Ou um adulto, um jovem, "supernormal" que, de uma hora para outra, para de andar e fica na dependência de aparelhos, de cadeiras de rodas, com a mobilidade motora reduzida? É uma realidade e uma transformação imediata. Acontece num piscar de olhos e qualquer um está sujeito a isso. No entanto, na capoeira há um encontro tão grande, mais tão grande, que de uma hora para outra essas limitações se dissipam. Essa transformação me fez ver um outro lado da vida no qual tudo é possível. Não vamos olhar a etiqueta da pessoa, mas sim o potencial que está escondido lá dentro. E esse é o meu trabalho: mostrar que todos somos capazes.”

 

 

 

 

José e Ivan Fontenele, pai e filho na capoeira da AACD Esportes

 

 

 

José e Ivan Fontenele participam da atividade

 

 

Capazes como pai e filho. Capazes como filho e pai. Juntos no esporte e no aprender, José guia os movimentos do filho Ivan, de seis anos, o qual responde e interage plenamente com o pai. Ambos se complementam. Ambos aprendem sobre si e sobre a vida. Mestre de capoeira e um dos pais que integram o grupo da AACD, José nos fala da satisfação de ter o filho ao seu lado na prática do esporte.

 

“O Ivan nasceu com má formação congênita. Não há ainda um laudo específico, os médicos ainda não conseguiram me dar esse diagnóstico. Porém, independente da questão médica, o Ivan é o presente de Deus para mim. Deus o colocou na minha vida e ele só me traz carinho e felicidade. Veja que um pai que joga bola certamente gostaria de ter o seu filho um dia jogando bola com ele. Eu que pratico a capoeira gostaria de ter o meu filho praticando junto comigo e aqui no grupo tenho essa felicidade de tê-lo ao meu lado.”

 

Um patrimônio imaterial da humanidade

No mesmo dia que visitamos o Lar Escola São Francisco, a Roda de Capoeira foi inscrita na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. O anúncio foi feito na 9ª Sessão do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, comandado por José Manuel Rodríguez Cuadros (Peru) e aberta no último dia 24 de novembro na sede da Organização em Paris, França.

 

A capoeira é uma manifestação cultural afrobrasileira muito conhecida em todo o Brasil e também de reconhecido valor internacional. A prática, que é ao mesmo tempo luta, dança, esporte e arte, agora junta-se ao Círio de Nazaré (PA), ao Frevo (PE), às Expressões Orais e Gráficas dos Wajapis (AP) e ao Samba de Roda do Recôncavo Baiano que já são reconhecidos como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

 

Para a representante adjunta do escritório da UNESCO no Brasil, Marlova Jovchelovich Noleto, ao inscrever a Roda de Capoeira na Lista do Patrimônio Imaterial da Humanidade, a UNESCO reconhece a relevância de uma das manifestações populares mais expressivas da cultura brasileira e valoriza a influência da herança africana na nossa história e na nossa cultura. Segundo Marlova, “o título assegura maior visibilidade à capoeira, aumenta o grau de conscientização sobre sua importância e propicia formas de diálogo que respeitem a diversidade cultural brasileira”.

 

Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão vinculado ao Ministério da Cultura e responsável pela apresentação da candidatura da Roda de Capoeira junto à UNESCO, a prática da capoeira está presente em mais de 150 países, além do Brasil, entre eles Estados Unidos, França e Bélgica. (com informações da Assessoria de Comunicação do Ministério da Cultura). [Fonte: UNESCO Brasil]

 

Entendimento e legado

Todas as experiências e vivências são fundamentais no processo de construção do aprendizado, pois culminam na ampliação dos saberes individuais e coletivos de uma sociedade. Nas práticas esportivas, ou mesmo na vivência das atividades físicas, esse processo além de não se mostrar diferente, evidencia-se pela capacidade de gerar laços afetivos e de interação, imprescindíveis à afirmação da personalidade de cada pessoa. Nas palavras da psicopedagoga Cecília Faro, em seu artigo "Uma reflexão sobre o aprender e o ensinar", o "aprender está conectado ao conhecimento e é preciso se colocar no lugar do outro para conectá-los"; necessidade ainda mais evidente nas palavras de Edna Garcez, coordenadora do grupo de capoeira da AACD Esportes, ao nos expressar o seu entendimento sobre o aprender:

 

"Aprender é amar, amar a cada dia mais, amar a si próprio, para sermos capazes de amar ao outro. Não importa a limitação, não importa a etiqueta que cada um traz, o importante é você, não importa de onde você vem e nem para onde você vai. Aqui damos a oportunidade das crianças sorrirem, de serem elas mesmas e de mostrar realmente o que elas sabem. Aprender é viver."

 

 

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